O Brasil terminou 2025 com inflação oficial de 4,26% — dentro da meta, abaixo do teto de 4,5% e comemorado como sinal de convergência.[1] Quem tem filho em escola particular, plano de saúde coletivo e faz compras no mercado todo semana sabe, de forma intuitiva, que esse número não descreve a realidade do seu orçamento. Esse artigo tenta colocar exatamente o que está acontecendo.
O IPCA não é uma fraude. É um instrumento estatístico com limitações metodológicas estruturais que, quando ignoradas, produzem uma ilusão de convergência. A meta de inflação é perseguida pelo Banco Central usando esse índice como referência. O problema é que o índice é uma média ponderada do consumo de famílias com renda entre 1 e 40 salários mínimos residentes em áreas urbanas.[2] Uma média. Quem está acima da mediana dessa faixa — com gastos proporcionalmente maiores em saúde, educação e serviços — experimenta uma inflação sistematicamente acima do número que aparece no telejornal.
A composição da cesta explica tudo. Os pesos do IPCA são definidos pela Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF), o levantamento do IBGE que mapeia para onde vai cada real gasto pelas famílias brasileiras. Pela última edição, a POF 2017-2018, transportes representam 20,8% do IPCA; alimentação e bebidas, 19%; habitação, 15,2%; saúde e cuidados pessoais, 13,5%; educação, 6%.[3] Em 2025, o arroz caiu 26,56% e puxou o índice para baixo com impacto de -0,20 p.p.; a energia elétrica subiu 12,31% e empurrou para cima com +0,48 p.p.[1] O primeiro entra na conta de quem come arroz. O segundo entra na conta de todo mundo — mas pesa mais em quem tem filho, ar-condicionado e casa maior. O problema é que quem tem filho em escola particular não economizou tanto no arroz. No cálculo do índice, você e o solteiro de 28 anos que reduz o consumo de carboidratos são o mesmo consumidor.
O argumento se torna ainda mais claro quando se olha para serviços em vez de alimentos. Em 2025, a alimentação no domicílio efetivamente desacelerou, subindo apenas 1,43% — reflexo da maior oferta agrícola.[1] Mas o lanche fora de casa subiu 11,35%; os cursos regulares, 6,54%; o plano de saúde, 6,42%; o aluguel residencial, 6,06%.[1] Todos acima do IPCA geral de 4,26%. Para quem tem crianças em casa e conta com escola particular, plano de saúde e mora de aluguel em capital, os números do cotidiano têm pouca relação com o índice comemorado em janeiro.
A saúde é onde o descolamento fica mais evidente ao longo do tempo. Entre 2006 e 2024, os preços dos planos de saúde acumularam alta de 327% no Brasil — quase o dobro do IPCA geral do período, de aproximadamente 170%, segundo o Instituto de Estudos para Políticas de Saúde.[6] Em 2025, a tendência não cedeu: o subitem plano de saúde subiu 6,42% no IPCA do ano, 51% acima do índice geral de 4,26%.[1] A ANS fixou o teto de reajuste para planos individuais em 6,06% para o ciclo maio de 2025 a abril de 2026, com base em despesas assistenciais que cresceram 9,35% e um custo total do setor que saltou de R$ 240 bilhões para R$ 256,8 bilhões.[9] Esse teto vale apenas para os 16,4% dos beneficiários com plano individual regulado.[9] Os outros 83,6% têm planos coletivos, sem teto definido pela ANS — e estimativas de mercado apontavam reajustes que poderiam superar 20% em 2025, dependendo da sinistralidade do contrato.[8] Dentro da meta. Fora do bolso.
A educação segue a mesma lógica. O IPCA computa o grupo educação com peso de apenas 6%.[3] No acumulado de 2025, o grupo subiu 6,22% — 46% acima do índice geral.[1] Os cursos regulares, que representam o maior subitem do grupo, subiram 6,54%.[1] E isso é o que aparece na média do IPCA, que inclui desde creches municipais até faculdades comunitárias. Quem paga escola particular de referência em capital sabe que os reajustes comunicados para 2025 ficaram entre 8% e 10% — o dobro da inflação oficial.[10] O subgrupo captura o mercado; o seu bolso, não.
O problema teórico por trás disso tem nome. Angus Deaton, prêmio Nobel de Economia de 2015 cuja obra sobre bem-estar e desigualdade é referência obrigatória nessa discussão, demonstrou que índices de preços agregados obscurecem variações distributivas relevantes. Quando os preços sobem de forma heterogênea — e no Brasil eles sobem exatamente assim, com serviços e bens não comercializáveis crescendo acima dos traded goods — famílias com cesta de consumo inclinada a serviços pagam inflação estruturalmente mais alta. O IPCA não foi projetado para capturar isso. Ele foi projetado para dar uma referência macroeconômica ao Banco Central. Funções diferentes.
Há ainda uma questão metodológica que pouca gente discute: a POF que alimenta os pesos do IPCA data de 2017-2018.[3] Oito anos sem atualização, num país que mudou profundamente seus padrões de consumo. O mundo do consumo mudou desde então — serviços digitais ganharam peso, a faixa de renda média urbana sofreu pressão de custos específicos, o gasto com saúde cresceu acima de qualquer projeção histórica. A próxima POF vai revelar uma cesta com saúde e serviços ainda mais pesados. Quando isso acontecer, o IPCA vai começar a capturar melhor o que famílias de renda média já pagam há anos.
Isso não significa que o Banco Central erra ao usar o IPCA como âncora da política monetária. Significa que o investidor que planeja sua independência financeira usando apenas o IPCA como proxy de inflação pessoal está subestimando o problema. Se você tem filhos, plano de saúde coletivo e mora em São Paulo, sua inflação real em 2025 foi provavelmente entre 6% e 8%. Não 4,26%. Essa diferença, composta ao longo de 20 anos, destrói um plano de aposentadoria desenhado com as hipóteses erradas.
O IPCA é um termômetro preciso para o que ele mede. O problema é quando confundimos o termômetro com a febre.
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REFERÊNCIAS
[1] IBGE. IPCA em dezembro vai a 0,33% e acumula 4,26% em 2025. Agência de Notícias IBGE, 9 jan. 2026. Disponível em: agenciadenoticias.ibge.gov.br. Acesso em: 29 abr. 2026.
[2] IBGE. Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo — Metodologia. Sistema Nacional de Índices de Preços ao Consumidor, 2020. Disponível em: ibge.gov.br. Acesso em: 29 abr. 2026.
[3] IBGE / Agência Brasil. IBGE inclui 56 itens no cálculo da inflação. Agência Brasil, 11 out. 2019. Disponível em: agenciabrasil.ebc.com.br. Acesso em: 29 abr. 2026.
[4] IBGE. IPCA em dezembro vai a 0,33% e acumula 4,26% em 2025 (dados por subitem — alimentação, cursos regulares, plano de saúde, lanche). Agência de Notícias IBGE, 9 jan. 2026. Disponível em: agenciadenoticias.ibge.gov.br. Acesso em: 29 abr. 2026.
[5] CNN Brasil. 98% das escolas particulares terão reajustes nas mensalidades de 2025, diz estudo. CNN Brasil, 2 ago. 2024. Disponível em: cnnbrasil.com.br. Acesso em: 29 abr. 2026.
[6] IEPS — Instituto de Estudos para Políticas de Saúde. Nota Técnica n. 37 — Inflação de planos de saúde no Brasil em perspectiva comparada. IEPS, jun. 2025. Disponível em: ieps.org.br. Acesso em: 29 abr. 2026.
[8] Elton Fernandes. Reajuste plano de saúde 2025 e 2026: como contestar o aumento. Análise com dados do Valor Econômico, abr. 2026. Disponível em: eltonfernandes.com.br. Acesso em: 29 abr. 2026.
[9] ANS — Agência Nacional de Saúde Suplementar. ANS define teto de 6,06% para reajuste de planos individuais e familiares. Nota oficial, 23 jun. 2025. Disponível em: gov.br/ans. Acesso em: 29 abr. 2026.
[10] CNN Brasil. 98% das escolas particulares terão reajustes nas mensalidades de 2025, diz estudo. CNN Brasil, 2 ago. 2024. Disponível em: cnnbrasil.com.br. Acesso em: 29 abr. 2026.